Os Quarenta e Nove Degraus Roberto Calasso
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Roberto Calasso, ensaísta e ficcionista florentino, em “Os quarenta e nove degraus”, escreve: “A história da opinião é a história mais obscura. Não há nada mais óbvio do que a opinião”, acrescentando, no entanto, que “os vastos pastos da opinião são o orgulho da civilização” e que a “opinião é acima de tudo um poder formal, um virtuosismo que aumenta constantemente, que ataca todos os materiais” (Livros Cotovia, 1996).
Um dos grandes críticos da opinião foi Karl Kraus (1874-1936), para quem “a opinião pode falar de tudo, mas não pode dizer tudo”, acrescentando que – e desde sempre – o órgão oficial da opinião é a imprensa. Hoje, graças aos diversos desenvolvimentos tecnológicos, a opinião está disseminada na globalidade que as rede da comunicação, e em particular nas redes sociais, possibilitam. Opina-se em todo o lado!
A referência a este dramaturgo, jornalista, ensaísta, aforista e poeta austríaco, tem, neste contexto, importância, porque serviu-se da “Die Fackel”, revista por si fundada, “para criticar os compromissos, as injustiças e a corrupção, e muito em particular a corrupção da língua”. Para Kraus, “qualquer pequeno erro na escrita é responsável pelas grandes tragédias no mundo. Assim, via na falha de uma vírgula um sintoma de que o estado do mundo permitiria uma guerra mundial”.
Esta referência parece-me ter importância num contexto tecnológico onde a projecção da palavra é global. Provocando, por um lado, uma clara alteração no “ordenamento do espaço e do tempo” [Edmundo Cordeiro; 2000], espelhando o que Ernst Jünger (1895-1998) definia como “mobilização total”: “A mobilização total (…) é, em tempo de paz como em tempo de guerra, a expressão de uma exigência secreta e constrangedora à qual submete esta era das massas e das máquinas” [Ernst Jünger; 1990]. Um conceito que o pensador, arquitecto e urbanista francês, Paul Virilo, transformou em “velocidade”, ou seja, “uma concepção de um tempo de exposição (cronoscópio) da duração dos acontecimentos à velocidade da Luz” [Paul Virilo; 1995].
Daí que sejamos – à boleia desta submissão das massas e das máquinas, com consequências evidentes na “mobilização do nosso campo de percepção” – confrontados com a “ilusão do mundo” e com as mais diversas virtualidades. Sendo o exercício da crítica e da suspeita, a “tábua” para a nossa salvação. Em suma, há que saber encontrar o real, neste “palheiro” a que a realidade parece ter sido confinada. Por outro lado, a crítica supõe um postulado ético já que nos convida a (procurar) ver melhor: “por vezes basta olhar de outra maneira para ver melhor”[Paul Virilo; 1995]!
Num dos números da Die Fackel, Kraus escreveu: “há muitos que partilham das minhas ideias. Eu é que não as partilho com eles. Se alguém perfilha todas as minhas ideias, isso não quer dizer necessariamente que a adição resulte num todo. Mesmo que eu próprio não tivesse nenhuma das minhas ideias, ainda seria mais do que um outro que perfilha todas as minhas ideias.” Ou seja: o ser humano é sempre “mais do que a soma das nossas ideias”. Com efeito, nós, tal como Janus, temos duas faces: ora somos emissores, ora somos receptores de ideias, pelo que, a questão traduz-se realmente na falta de espírito crítico e/ou na capacidade da suspeita; na necessidade de seremos capazes de desconfiar! Por outras palavras:como nem tudo o que luz não é de ouro é preciso estarmos atentos!
Não se trata, porém, de um problema novo. O que é novidade é a velocidade com que as ideias se espelham. Não foi por causa da transmissão de más ideias que foram cometidos os maiores crimes contra a humanidade, e que estão na base dos movimentos totalitários nascidos no século passado? Não é por ameaças análogas que os “verdadeiros” europeístas suspiram de alívio quando uma ameaça populista perde nas urnas? Com efeito, temos que ter “bons olhos”, e sobretudo a capacidade de adaptação e de resistência para não ceder à realidade. Não é porque uns, sempre em nome de visões circunscritas da realidade, se acham no direito de inverter o mundo que devemos ceder. É esta a pedagogia. É isto que devemos transmitir aos nossos filhos, como é esta a grande missão da educação. É preciso, e sem medo, transmitir os valores em que o Ocidente se baseia. Caso contrário regredimos no tempo!
Ninguém está impedido de partilhar as ideias dos outros. É um direito que nos assiste. O que acontece – e isto é grave – é que vivemos presos às ideias dos outros. As ideias dos outros tem o mesmo efeito perverso do eucalipto: secam tudo o que lhes rodeia, secando a autonomia das nossas ideias. Hoje, como disse recentemente António de Castro Caeiro numa entrevista à TSF, “as pessoas não pensam em voz alta”! Acrescento: nem em voz alta, nem em voz baixa: As pessoas simplesmentenão pensam!
Acontece, todavia, que o fenómeno não é novo. Ou seja, esta imensa preguiça intelectual não é, de facto, recente. Aliás, como dizia Alexandre Herculano, “o homem é mais propenso a contentar-se com as ideias dos outros, do que a reflectir e a raciocinar”
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