Jesus, um Homem Livre, Christian Duquoc
€7.00
CONTACTE-NOS
A liberdade, em Jesus, não se mostra, no seu ensinamento e no modo da sua existência, inferior às suas relações sociais. Os seus ouvintes ficaram impressionados com a sua maneira de ensinar: ensinava com autoridade(Mc 1:22), e não como os escribas e os fariseus. Estes eram ‘comentadores’. Jesus era um criador. A ideia que os escribas e os fariseus faziam da Lei e da religião judaicas não lhes permitia outra atitude. Por isso, o debate entre eles e Jesus concentrava-se na maneira como ele se refere à Lei. Múltiplos episódios dos evangelhos são consagrados a controvérsias sobre pontos de observância ritual. Julgando-o superficialmente, a importância que lhes é dada pelos evangelistas parece-nos facilmente exagerada. Na realidade, esses episódios fornecem debates concretos para manifestarem como, em Jesus, ensino e atitude estão ligados. A sua palavra comenta o seu comportamento. Às acusações dos fariseus (contra os discípulos) de não respeitarem a tradição dos «antigos» (Mc 7:2-3), Jesus responde contestando a origem divina de tais observâncias, pois elas são humanas e devem ser julgadas humanamente. Atribuem-lhes um valor desmedido, a ponto de lhes sacrificarem o mandamento de Deus que é o de não prejudicar os outros (Mc 7:9-14). A transgressão do Sábado desencadeia oposições violentas: Jesus indica o sentido do próprio comportamento ou do dos discípulos. Ou então recorda a liberdade tomada por uma das maiores figuras de religião judaica, David (Mt 12:1-8); ou ainda lembra o que é evidente para quem quer que não seja fanático: «O Sábado foi feito para o Homem». Em Israel, os Mestres são culpados de inverterem a ordem, sob o pretexto de honrarem a Deus: esquecem-se que, aos olhos de Deus, conta somente a misericórdia, não o sacrifício (Mt 12:7). Jesus, com bom senso, denuncia a mesquinhez legal quando o censuram por ter curado no dia de Sábado, o que é proibido pela Lei: «Qual dentre vós, se tiver uma ovelha e ela cair numa cova, num Sábado, não irá buscá-la e tirá-la de lá?» (Mt 12:11)
A liberdade de Jesus, relativamente à Lei, confere-lhe a faculdade de julgar. A Lei deve ser apreciada, na prática concreta, sob a dupla exigência do amor de Deus e do próximo (Mt 7:12; 22:37-40; Mc 12:28-34). Se Jesus não receia transgredir a Lei, a ponto de escandalizar os mestres em religião, é porque a sua liberdade é uma forma de amor ao próximo (Mt 7:12).
«O Sermão da Montanha», quer dizer, os capítulos 5, 6 e 7 de Mateus, que reúne numa única exposição palavras dispersas de Jesus, tem origem nessa atitude de liberdade. Jesus não se apoia em qualquer tradição: «Ouvistes o que foi dito…» (Mt 5:43). «Eu porém digo-vos» (MT 5:44). Jesusexplica, num estilo paradoxal, a determinante do seu próprio comportamento, cuja regra é não ter outra senão a sua atitude para com Deus e o seu amor efectivo pelo próximo. Jesus não promulga uma nova Lei, não faz uma teoria da Lei; adopta uma atitudeque contesta radicalmente a função que faziam desempenhar a essa Lei. Esta opção espanta, escandaliza. É tão nova que o povo fica impressionado com a autoridade com a qual ele a faz sua. O povo e os fariseus ficaram excitados com essa liberdade, procuraram determinar-lhe a origem. Não é a do pecador, senão a Lei teria razão contra ele. A liberdade de Jesus é de outra ordem. Os fariseus, os escribas, os saduceus têm medo: consideram perigoso o comportamento de Jesus. Apertam Jesus com perguntas, estendem-lhe armadilhas. Esperam chegar a definir-lhe o comportamento segundo as categorias recebidas.
Jesus confunde-os, abre-lhes uma brecha no sistema religioso.
A liberdade de Jesus impõe-se a tal ponto que não podem esquivar-se à questão que ela suscita. Irrita-os, constrange-os a tomarem partido, obriga-os a serem eles mesmos.Chegam aos julgamentos extremos – acusam, aquele que tem autoridade sobre os possessos, de agir por magia.
Christian Duquoc, op
‘Jesus, Homem livre – esboço duma cristologia’
Edições Paulistas, 1975, Colecção ‘Fé e mundo moderno’.
PartilheProdutos Relacionados

A Sensação Henri Pieron
A sensação é um facto psíquico elementar, mas nem por isso menos importante, já que se encontra na base não só do processo cognitivo, como também de todo o relacionamento do organismo com o meio em que se encontra inserido. … Ler mais

Psicologia da Atracão Sexual Glenn Wilson e David Dias
Psicologia da Atracão Sexual Glenn Wilson e David Dias Partilhe

Muito à Frente Mónica Menezes
O primeiro livro da jornalista Mónica Menezes é o manual perfeito para cada adolescente «controlar a cena» da sua vida e para os pais entrarem no universo daqueles estranhos seres em que os seus filhos parecem ter-se transformado. Como se … Ler mais

A PRIMEIRA IDADE DA CIÊNCIA – A CIÊNCIA NO SÉCULO XIX E TEMPO DE D. CARLOS I (1863-1908)
[sgmb id=”2″]Gradiva, Lisboa 1996. 13,5x21cm. 88[1] págs Ciência Aberta “É no tempo do rei D. Carlos que o nó, que parecia perfeito, na Ciência se começa a desatar. A Primeira Idade da Ciência viu nascer a Termodinâmica, o Electromagnetismo, a … Ler mais

As Regras do Método Sociológico LIVRO de Émile Durkheim
Um texto clássico fundamental para todos os que pretendem conhecer os diferentes métodos de análise dos factos sociais, da autoria de uma das grandes referências da história da Sociologia. Uma obra agora integrada na colecção Universidade Hoje. [sgmb id=”2″] Partilhe

As Comunicações – A entrevista individual Editora: Clássica Autor: H. Dorra
As Comunicações – A entrevista individual Editora: Clássica Autor: H. Dorra Partilhe

Paradigmas Educacionais Escola e Sociedades Yves Bertrand (Autor) BERTRAND, YVES (Autor) Paul Valois (Autor) Edição em Português
A educação está unida à sociedade por laços indissociáveis. Determinado por orientações de natureza social, o sistema educativo tende e reproduzir e promover modelos caros ao sistema social que o informa. Tal não significa, porém, que a sua função criadora … Ler mais


